Fonte: Culturadoria | 28/Mar/2025
A relação fraturada de uma mãe e sua filha é o principal pilar do novo filme de François Ozon, em cartaz na cidade
Por Patrícia Cassese
Em cartaz na cidade, “Quando Chega o Outono” (1h 42m), novo filme de François Ozon, finca-se sobre uma estrutura interessante. Que mescla os componentes do drama a elementos de suspense, permitindo-se não fornecer respostas a todas as perguntas levantadas no curso da narrativa. Na verdade, é como se o diretor oferecesse, ao espectador, um pacote que, quando aberto, revela, na verdade. Um outro menor apenas em tamanho, e assim sucessivamente. Deixando crescer a expectativa na mente daquele que está ali, incumbido da tarefa de desembrulhar a encomenda. Afinal, o que, ao fim desse desafio, ele vai de fato encontrar?
Os momentos iniciais condensam o acontecimento que sustenta a sinopse divulgada do filme de Ozon. Cujo título original – “Quand vient l’automne” – foi respeitado pela tradução. A saber: “Michelle ( Hélène Vincent) vive uma vida tranquila num vilarejo bucólico e pitoresco da Borgonha junto com sua amiga e vizinha de longa data Marie-Claude (Josiane Balasko). Enquanto desfrutam desses dias pacíficos de aposentadas, Michelle está particularmente ansiosa em passar as férias de verão com seu neto, Lucas (Garlan Erlos, nesta fase)”.
Os planos, porém, são cancelados quando a filha de Michelle, Valérie (Ludivine Sagnier, da série “Lupin”). É acidentalmente intoxicada pelos cogumelos que Michelle serve no almoço. “O caso abala ainda mais a relação carregada de mágoas e traumas do passado”, completa a apresentação do mais novo longa de Ozon.
O que acontece é que, para preparar a refeição para a filha e o neto. Que estão chegando de Paris (a mãe intenta deixar o garoto passar as férias com a avó). Michelle resolve colher cogumelos nas cercanias de sua casa, ao lado de Marie-Claude. No entanto, uma avaliação errônea faz com que uma espécie não comestível seja, ao fim, colocada na frigideira junto às demais. Detalhe: apenas Valérie experimenta o prato, já que o neto diz não gostar de cogumelos e a avó, que preparou a refeição, também declina.
Ao voltar de um passeio com o neto, Michelle já encontra uma ambulância estacionada em frente à sua casa. Intoxicada, a filha é levada ao hospital, onde precisa passar por uma lavagem intestinal. Já restabelecida, uma Valérie enfurecida parte de forma brusca com o filho de volta à capital francesa. Frustrando, pois, os planos de Michelle, quanto a passar um período a sós com o garoto, alvo de sua devoção. No entanto, Valérie decide não fazer qualquer denúncia sobre o ocorrido, solidificando a teoria de que sim, mesmo para ela, tudo não passou de um lamentável equívoco. O que, na verdade, nem é tão raro assim, como aponta o médico a Michelle, visando aliviar o sentimento de culpa da personagem de Ozon.
Mas se o caso dos cogumelos parece estar, ao menos no âmbito do racional, para a filha, explicado, abre-se, ali, uma nova fratura na relação das duas, sendo que os sismos anteriores são em parte revelados em outros momentos da trama. Ao mesmo tempo, abre-se espaço para o personagem Vincent (Pierre Lottin, que recentemente foi visto no Festival Varilux, no filme “A Fanfarra”), filho de Marie-Claude que, no ínicio, estava, como informado ao espectador, preso. Detalhe: o motivo que levou o rapaz ao encarceramento não é citado em momento algum.
De pronto, Michelle acolhe o rapaz, oferecendo-lhe, inicialmente, uma fonte de renda generosa. Mas que, por seu turno, ao ver a amiga da mãe sofrendo pela distância do neto e pelo fato de a filha dela não atender mais às ligações da genitora, após o episódio dos cogumelos, resolve, ele próprio, ir a Paris. O que faz em segredo, supostamente com o intuito de conversar com Valérie e, quem sabe, convencê-la a reatar com a mãe.
Sem respostas fáceis
Reza a prudência não avançarmos mais desse ponto de modo a não comprometer o fator surpresa que a trama reserva ao espectador, e que, tal como o pacote aludido, vai se desdobrando em camadas. Mas, também como já assinalado, que fique dito: Ozon não faz questão alguma de oferecer todas as respostas, deixando para o espectador a desafiadora tarefa de aventar o que de fato ocorreu e elaborar suas próprias teorias.
Na verdade, não entregar de bandeja respostas é uma característica frequente no cinema europeu. O trunfo de Ozon, portanto, reside na excelente urdidura da trama, que, no seu decorrer, espraia elementos que, se devidamente cooptados pela plateia, compõem um panorama bem sagaz do recorte pelo diretor e roteirista escolhido. São detalhes que ele asperge aqui e ali, e que, ao fim, sustentam a cadeia de possibilidades no filme ventilada, propiciando um bom entretenimento em meio a toda simbologia da estação do ano evocada.
Serviço
“Quando Chega o Outono” – François Ozon
Em BH, sessões no Centro Cultural Unimed-BH Minas, às 16h20, e no Cineart Ponteio (Ponteio Lar Shopping), às 21h.
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